“E o fervo, como fica?” – jornalista e ativista LGBT William de Lucca conversa com DJs sobre impacto da pandemia

O impacto do novo coronavírus na vida destas pessoas foi tema de debate entre o jornalista e ativista LGBT William De Lucca, pré-candidato a vereador de São Paulo pelo PT, e os DJs e produtores culturais Leo Villardi e Alcimar. Um espaço seguro que deixou de existir de um dia para o outro. Além de um lugar de lazer, baladas LGBT servem também de refúgio para milhares de pessoas que não podem se divertir com tranquilidade em outros estabelecimentos ou eventos.

Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, muitas casas noturnas voltadas para o público LGBT tiveram obviamente que fechar as suas portas, causando impacto na vida de trabalhadores e frequentadores da noite. No encontro virtual, eles debateram as consequências do fechamento das casas, o papel do poder público e a importância da representatividade.

William de Lucca conversa com DJs sobre futuro das baladas
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“Ninguém entende o quanto é difícil sair de casa de mão dada e ficar olhando para os lados para saber se eu posso continuar de mão dada ou não. Nossas dores e delícias só quem sabe é a gente”, afirmou William De Lucca, ressaltando o papel das festas e baladas como espaços seguros para a diversidade sexual.

Para Alcimar, a pandemia tem causado efeitos psicológicos também em quem costuma aproveitar estes eventos para se expressar de forma plena.

“Eu conheço pessoas que saem de casa com uma roupa, no meio do caminho passam na casa de um amigo, trocam de roupa e vão para a balada! Aí curtem e voltam para casa com outra. [Em outros lugares] a pessoa não se sente à vontade nem de vestir o que ela quer! Então essas pessoas estão sufocadas, estão em casa sofrendo muito mais que uma grande parcela. Não que os outros não estejam, todo mundo está passando por uma situação muito difícil, mas essas pessoas são um caso à parte que a gente tem que dar uma atenção”, afirmou.

Leo Villardi fez coro ao ressaltar a real possibilidade de discriminação e constrangimento que uma pessoa LGBT pode ser submetida em ambientes que não estejam devidamente preparados para isso.

“A maioria das pessoas só pode ‘ser LGBT’ naqueles espaços, e isso influencia diretamente na vida das pessoas, que só tinham esses espaços para ser quem elas são – e agora não tem mais nem isso. E a gente sabe que a gente não é tão bem-vindo assim em outros lugares. Existir naqueles espaços LGBT é uma forma de resistência como um todo. É tirar mais que só o entretenimento: é tirar uma parcela considerável da vida dela. E não ter uma previsão para isso voltar, mexe muito com a cabeça das pessoas”, completou.

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LGBT e conjuntura

O cenário adverso – causado pela crise econômica e sanitária somada à ineficiência do governo federal em administrar a situação de forma minimamente razoável – também foi lembrado pelos debatedores. A falta de perspectiva quanto à contenção do vírus e, consequentemente, a não previsão de um retorno das atividades das casas noturnas traz impactos econômicos, além dos efeitos psicológicos já mencionados. Para os DJs, faltam políticas públicas para este setor da economia.

“O ideal seria que existisse um programa que garantisse o funcionamento desses lugares. Poderia ter tido um incentivo do estado, porque ficar um ano sem trabalhar, não tem estabelecimento ou pessoa que sobreviva”, disse Leo.

Alcimar destacou o fator dos preços dos aluguéis pagos pelos donos das casas noturnas como um desafio à manutenção após a saída da crise.

“O poder público poderia ajudar o dono do imóvel, para que ele ajudasse o dono da balada. Tipo: ‘não vou te cobrar IPTU esse ano, e você segura o aluguel durante a pandemia’. Tem muitas ideias de como o governo poderia ajudar as pessoas, porque o que mais está causando o fechamento das casas é justamente isso: não está entrando dinheiro, mas tem que pagar o aluguel. Então se o governo pudesse ajudar nesse ponto, seria um grande passo para que muitas casas não fechassem”, afirmou.

William De Lucca aproveitou a situação para destacar a importância de haver um representante gay na Câmara de Vereadores capaz de entender e discutir estas particularidades que passam despercebidas pelo legislativo.

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“Acho que é um desafio muito grande nessas eleições fazer com que a comunidade LGBT entenda a importância de ter representantes que pensam como eles ocupando esses espaços. Porque não é um mandato de um homem branco genérico; é um mandato de um veado, uma ‘poc’, debatendo de igual para igual com os fascistas que foram eleitos com votos de quem acha que tortura é bom, que bater em veado é OK e que homofobia é aceitável. Ou nós estamos lá para fazer esse debate, ou ninguém vai fazer do jeito que precisa ser feito”, disse William de Lucca.

Mesmo neste cenário de terra arrasada, Alcimar se mostra confiante quanto à vida noturna após a crise.

“O pós-pandemia, com vacina e voltando ao normal, vai ser o apocalipse das baladas! As baladas que conseguirem sobreviver à pandemia, acho que terão um futuro muito bom”, completou.

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