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14 de março de 2018

Últimos dias da mostra ‘Matriz do Tempo Real’ no MAC USP

Um dos grandes representantes da arte conceitual, On Kawara ficou conhecido pela série Today (Hoje). Desenvolvido ao longo de 48 anos, o trabalho era, antes de tudo, um ritual. Para cada dia que passava, o artista japonês produzia uma pintura, em cujo centro escrevia a data da obra. Assim que prontas, as telas eram guardadas em uma caixa forrada por um jornal. O artista, que costumava viajar muito, manteve o hábito onde quer que estivesse, produzindo até a sua morte, em 2014. Ao eternizar dias anônimos, Today é, sobretudo, uma reflexão sobre a força esmagadora do tempo.

A obra de On Kawara compõe a exposição Matriz do Tempo Real, coletiva que o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) recebe até 18 de março. Com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, concepção de Ricardo Ribenboim e realização da Cia das Licenças, a exposição reúne cerca de 40 trabalhos de artistas brasileiros e internacionais. O passar do tempo constitui o elemento central das obras, seja do ponto de vista da reflexão filosófica, seja num sentido processual, dos dias levados para a realização do trabalho.

A mostra abre com 4’33”, do compositor americano John Cage. Apresentada pela primeira vez em 1952, a música não possui nenhuma nota. Durante os 4 minutos e 33 segundos, o pianista permanece sem tocar, chamando atenção para os ruídos da plateia, que também seriam considerados parte da música. A obra de Cage é tida como uma das percursoras da arte conceitual, que, no fim da década de 1960, questionou a feitichização do objeto, promovendo ações efêmeras, que não pudessem ser comercializadas pelo mercado.

Esses trabalhos internacionais conversam com a produção brasileira, como a de Artur Barrio e Ivens Machado, presente na coleção do MAC.  Ao propor o diálogo entre as obras, a exposição agrega novas leituras ao acervo do museu, que foi protagonista na difusão da arte conceitual no País. “Durante a gestão de Walter Zanini (1963-1978), o MAC teve um papel fundamental, tanto na concepção das obras, oferecendo materiais e equipamentos, quanto no apoio aos artistas, criando um lugar onde esse tipo de produção fosse conhecida e valorizada”, pontua o curador.

Matriz do Tempo Real contempla vários formatos, tais como vídeo, fotografia e pintura.  “A exposição contém uma variedade de artistas que, de maneiras bastante distintas, possuem o desejo de capturar o tempo”, afirma Jacopo.

O anseio de registrar a passagem dos dias aparece, por exemplo, na série de vídeos Time as Activity (Tempo como atividade), do argentino David Lamelas. Iniciado em 1969 e levado adiante até hoje, o trabalho é composto por registros de cenas banais em diferentes cidades ao redor do mundo. Nos vídeos, o artista sempre informa a duração de cada uma das cenas, assim como o dia e a hora em que foram capturadas. A paisagem é o que menos importa, sendo a filmagem do próprio tempo o teor principal do trabalho.

A mostra também destaca a linguagem da performance, representada pela artista Ana Amorim. Ao longo da exposição, a paulistana apresentará a performance Contar Segundos, concebida em 1984. Na ação, a artista conta, literalmente, um por um, os segundos de uma hora. Para cada segundo, Ana traça uma linha em um caderno que se torna, assim, o registro da performance.

A exibição de registros, por sinal, é um aspecto importante de alguns trabalhos que, por serem efêmeros, só podem ser conhecidos pelo público através dos documentos. É o caso do inglês Hamish Fulton. Depois de realizar uma caminhada de 47 dias e 1644,75 quilômetros, o artista decidiu que toda sua obra seria baseada no ato de andar.

Em museus e galerias, ele exibe textos e fotos que retratam suas experiências, como em No Talking for Seven Days [Sem falar por sete dias], registro de uma viagem que realizou pela Escócia. Porém, o trabalho em si continua sendo o ato de andar, como o inglês já ironizou em mais de uma ocasião: “Uma obra de arte pode ser adquirida, mas uma caminhada não pode ser vendida”.

Em sua trajetória, Artur Barrio também ficou conhecido por suas obras que questionavam o sistema da arte. Nas famosas Situações, criadas a partir de 1969, o luso-brasileiro intervinha na cidade, utilizando elementos orgânicos como papel higiênicos, sangue e carne putrefata. Em estado de deterioração, os próprios materiais já tratavam da efemeridade, questão também evidente em Relógio Navalha, exibido na mostra. O trabalho traz duas fotos que registram uma ação experimental, realizada em 1973. Na ocasião, Barrio colocou uma lâmina de barbear em frente ao espelho, concebendo uma imagem que se aproximava à de ponteiros de um relógio, apresentando “uma clara alusão à ação potencialmente destrutiva do tempo”, como afirma o curador.

Arte e vida

De caráter mais intimista, outros trabalhos se aproximam das narrativas pessoais, que unem arte e vida. É o caso de O Penélope, o recruta, o aranha, de Leonilson, produzido em 1991, quando o artista já havia sido diagnosticado como portador de HIV. A obra é uma referência àOdisseia, mais especificamente à personagem Penélope, esposa de Ulisses, que esperou o marido por vinte anos, tecendo de dia e desfazendo de noite a sua mortalha.

Para Leonilson, o ato de bordar adquiriu, no período final de sua vida, um caráter quase místico: “Fico fazendo esses trabalhos como orações, da mesma maneira como os hindus fazem bordados. É como uma religião que fornece símbolos. Acreditando neles, você pode chegar a algum lugar”, afirmou o artista.

O italiano Franco Vaccari, por sua vez, investiga a construção da memória. Em Provvista di ricordi per il tempo dell’Alzheimer (Reserva de lembranças para a época do Alzheimer), ele apresenta uma montagem com fotografias e vídeos caseiros de famílias italianas anônimas. Ainda que desconhecidas pelo público, juntas, as imagens remetem a uma história coletiva, que resiste ao tempo.

As reminiscências do passado também são centrais nas fotos de Mauro Restiffe. O paulista reúne imagens que realizou na Rússia, em dois períodos distintos: no começo dos anos 1990 e entre 2015 e 2016. Com uma distância de duas décadas, as fotos mostram tanto a transformação dos lugares quanto das pessoas que os habitam ou passaram por eles, incluindo o próprio fotógrafo.

Matriz do Tempo Real
Local: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 – São Paulo
Abertura: 13 de janeiro, a partir das 11h.
Período expositivo: de 13 de janeiro a 18 de março
Visitação: de terça-feira, das 10h às 21h | quarta a domingo, das 10h às 18h
Entrada gratuita

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