Orgulho LGBTQIA+ é transformar decepções em atos que levem experiências melhores ao próximo

Ingressei na companhia há 10 anos, como assistente de vendas, na linha de UTI. Passei pelo cargo de analista e no programa interno de trainee, e depois me tornei representante comercial na área de Surgical Innovations. Nessa função, acompanhávamos cirurgias nos hospitais para prestar suporte técnico aos profissionais da saúde. Certo dia, minutos antes de um procedimento, conversava com uma colega sobre a importância da causa LGBTQIA+ e, outro profissional de saúde que estava no mesmo ambiente ouviu a conversa.

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Durante o procedimento, percebi claramente que ele estava incomodado com a minha presença, porque ficou proferindo ofensas gratuitas à comunidade LGBTQIA+. Mantive a calma e a neutralidade, embora estivesse constrangida e magoada ao ouvir o que ele falava. Porém, mantive a minha integridade ética e profissional, comportamento que parecia irritá-lo ainda mais. Foi então que, ao jogar um material que fora utilizado no procedimento, o profissional me atingiu. Como eu estava bem paramentada, me certifiquei de que tudo estava sob controle e continuei com a minha função. Fui treinada para analisar detalhes que ajudam a salvar vidas e a não desviar a atenção do procedimento. É uma causa muito maior. Acredito que uma pessoa de pensamento tão restrito não deve interferir no trabalho de ninguém. Continuei com o meu trabalho, minha missão. Hoje sou casada com uma mulher, tenho uma filha de 1 ano e 9 meses e construí uma família, graças ao apoio da empresa em que trabalho, a Medtronic. Sou uma das líderes do PRIDE (Comitê do Orgulho LGBTQIA+). Ter o apoio de uma instituição que defende a causa com garra, e não trata o assunto de forma superficial – “só para inglês ver” -, fez toda a diferença na minha história.

Sou representante comercial da área de tecnologia para a saúde. Eu mais que ninguém sei do esforço da companhia no desenvolvimento de soluções e em torná-las acessíveis à população para que salvem vidas. E, consequentemente, da valorização que dão a ela para entenderem que amor e respeito estão acima de tudo, e que a orientação sexual não interfere na competência profissional.

Foi com esse objetivo que assumi a liderança do PRIDE em 2021. Mesmo após anos, a experiência naquele hospital me motiva a compartilhar conhecimento e a provocar mudanças para que situações como essas jamais ocorram no ambiente corporativo e em nenhum outro. O PRIDE já existe nos mais de 150 países que a empresa está presente, mas esse é o primeiro ano no Brasil. A luta será para garantir que o respeito seja igual para todos, independente da orientação sexual. Quando aceitei o desafio, uma das premissas para eu me envolver foi ter a liberdade de torná-lo realmente efetivo, já que existem muitas empresas com iniciativas de LGBTQIA+ que não geram impacto positivo ou mudança alguma.

A atividades iniciais geraram uma movimentação dos funcionários na busca por conhecimento. Por exemplo, uma dúvida comum é: ao se dirigir a uma pessoa que se identifica como transexual. Como devo chamá-la: “ele” ou “ela”? Não há problema nenhum em não saber e não devemos julgar ninguém por isso. É o nosso dever compartilhar informação para provocar a mudança que tanto queremos. Iniciamos, então, rodas de conversas com os vários departamentos para explicar as novas siglas, conceitos e tirar dúvidas. Inclusive, o PRIDE global definiu que neste ano fiscal o tema trans será abordado em todos os países.

A ideia é falar dos desafios desses profissionais na vida e ambiente de trabalho. Para isso, convidamos a atriz trans Nany People, que irá participar do nosso evento virtual, no próximo 10/06, com todos os funcionários da empresa.

Eu sei que os desafios são imensos e há muitas barreiras para superar em uma sociedade culturalmente preconceituosa. Ao mesmo tempo, já estamos colhendo frutos desse trabalho. Um funcionário assumiu a sua orientação sexual por ver que estamos criando um ambiente seguro.

Fico como líder do Pride no Brasil por 2 ou 3 anos, mas se eu saísse amanhã, já estaria satisfeita por saber que as mudanças provocadas pelo comitê serviram, ao menos, para uma pessoa se sentir segura o suficiente para ser quem é. Isso por que, na empresa que ela trabalha, promovemos esta rede de apoio e segurança, além de tratar o tema de forma aberta. É esse o nosso intuito – criar um ambiente corporativo seguro para que as pessoas possam ser quem elas são.

 

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